APRENDA O QUE É CONCEITO

Por muitos anos, a pergunta que mais ouvi nas aulas, nos cursos e nos bastidores foi sempre a mesma: “Peter, por onde eu começo?”

E quase sempre, essa pergunta vinha acompanhada de outra, ainda mais preocupante: “Que material eu compro primeiro?”

Essa ansiedade é compreensível. Quando a gente quer criar, a primeira vontade é correr para a loja, comprar fragrâncias, corantes, formas, embalagens. Mas, com o tempo, eu percebi que esse impulso é exatamente o que separa um trabalho artesanal comum de um projeto criativo profissional.

Antes da matéria-prima, antes da bancada, antes das essências, existe algo invisível — e absolutamente determinante — chamado CONCEITO.

Conceito é o que transforma um sabonete em uma experiência. É o que faz de um creme um ritual de autocuidado. É o que faz uma linha inteira parecer uma história contada.

Bora aprender mais?

O QUE É CONCEITO — E POR QUE ELE NÃO É SÓ UM “ESTILO BONITO”

Quando falamos de conceito, muitas pessoas imaginam algo distante, complexo, quase acadêmico. Mas, na prática, conceito é algo profundamente humano: é a intenção por trás da criação.

É o sentimento que você quer despertar.
É a atmosfera que envolve o produto.
É a narrativa silenciosa que o cliente percebe sem precisar ler uma só palavra.

Conceito não é apenas escolher entre flores ou mar. Não é apenas dizer “vou fazer algo rústico”.

Conceito é decidir “quem é” esse produto no mundo.

Vamos para alguns exemplos do mundo real?

Quando uma marca como AESOP aposta em frascos âmbar, tipografia simples e uma comunicação quase científica, ela não está apenas escolhendo uma estética bonita. Ela está construindo um conceito muito claro: o de uma marca intelectual, sensorialmente sofisticada, quase farmacêutica, que convida o consumidor a desacelerar, ler rótulos longos, refletir sobre ingredientes e ritualizar o cuidado. As lojas da Aesop parecem bibliotecas ou galerias de arte, com arquitetura pensada como experiência sensorial.

O conceito da marca é o de luxo silencioso, conhecimento, profundidade e contemplação. É como se cada produto dissesse: “somos sérios, somos técnicos, somos sofisticados sem precisar gritar”.

Já a CHANEL, quando mantém frascos clássicos, tipografia elegante e campanhas cinematográficas, ela está reforçando um conceito de herança, tradição e eternidade. A Chanel não vende apenas perfume ou cosmético; ela vende a ideia de uma mulher atemporal, elegante, que atravessa gerações sem perder relevância.

O conceito da marca está profundamente ligado à história, à alta-costura, à ideia de legado. Cada detalhe — do preto e branco icônico às campanhas com atrizes consagradas — comunica que a Chanel não segue tendências passageiras: ela é a própria referência de luxo clássico.

Já a GLOSSIER construiu seu conceito quase como uma resposta à indústria tradicional da beleza. Com tons de rosa, embalagens amigáveis, fotos espontâneas e linguagem informal, a marca comunica proximidade, naturalidade e pertencimento.

O conceito da Glossier é o de beleza real, cotidiana, sem filtros pesados. Ela conversa com uma geração que quer se reconhecer nas marcas, que valoriza diversidade, simplicidade e autenticidade. É uma marca que parece uma amiga, não uma autoridade distante. O conceito aqui é comunidade, juventude, inclusão e leveza. Como quem diz: “somos jovens, inclusivos, reais”.

E quando a BALENCIAGA provoca com uma estética estranha, campanhas quase artísticas e produtos que desafiam o senso comum, ela está operando em um conceito completamente diferente: o da provocação intelectual. A Balenciaga questiona o que é bonito, o que é luxo, o que é moda. Ela transforma o “feio”, o cotidiano e o inesperado em objeto de desejo.

Seu conceito é o de ruptura, crítica cultural, arte aplicada ao consumo. A marca não quer agradar a todos — ela quer provocar reflexão, gerar conversa, incomodar e liderar discurso. Ela diz: “não seguimos regras, questionamos o que é belo”.

Percebe como, em todos esses casos, o conceito não está apenas no produto?

Ele está na loja, na fotografia, nos textos escritos, na linguagem, na tipografia, no comportamento da marca, na experiência que ela entrega. O conceito é a personalidade inteira da marca manifestada em cada detalhe.

Tudo isso é conceito.
E, no artesanal, não é diferente.

CONCEITO: O PRIMEIRO PASSO DE QUALQUER PROJETO

Durante muito tempo, o artesanato foi tratado como algo intuitivo, quase impulsivo. A pessoa criava porque sentia vontade, porque achava bonito, porque viu uma referência na internet. Isso é válido, mas não constrói marca nem percepção de valor.

Sempre me intrigou o fato de áreas como design, moda e arquitetura começarem tudo com um projeto, enquanto na saboaria quase ninguém falava disso. E foi estudando, pesquisando e observando que eu entendi: o conceito é o ponto zero de QUALQUER projeto criativo.

Quando você define um conceito, você cria um fio condutor. Ele vai guiar as cores, os aromas, as embalagens, os textos, as fotos, os preços, o público. Sem conceito, tudo vira um pouco de tudo. Com conceito, tudo se conecta e passa a dialogar.

E isso não só deixa o trabalho mais bonito — deixa ele mais vendável e profissional.

UMA HISTÓRIA REAL: QUANDO O CONCEITO MUDA TUDO

Lembro de uma aluna que chegou em um dos meus cursos completamente desanimada. Ela fazia sabonetes lindos, tecnicamente impecáveis, mas não conseguia vender. O feedback que recebia era sempre o mesmo: “é bonito, mas não sei por que escolher esse e não outro mais em conta”.

Quando olhei para a bancada dela, entendi o problema imediatamente. Tinha um sabonete provençal, um rústico, um infantil tudo junto. Cada produto era bonito sozinho, mas juntos não contavam nenhuma história.

Propus um exercício simples: escolher um único conceito e criar uma mini coleção. Ela escolheu o conceito botânico, inspirado em uma viagem que fez a um jardim sensorial. Pesquisamos imagens, montamos uma paleta de verdes profundos, beges terrosos e toques de branco. Descrevemos o cheiro daquele lugar: folhas amassadas, terra úmida, ervas frescas. Criamos um briefing emocional, a personalidade da linha.

Quando ela lançou essa coleção, algo mágico aconteceu. As pessoas não compravam só sabonete. Compravam “o jardim”. Compravam a sensação de estar em um espaço de calma, natureza e silêncio. O ticket médio aumentou, as vendas cresceram e, mais importante, ela passou a ser reconhecida por uma identidade clara.

Esse é o poder do conceito.

CONCEITOS QUE FUNCIONAM NO COSMÉTICO CRIATIVO

No universo da saboaria artesanal, existem conceitos que se traduzem muito bem em produtos sensoriais. Vou te dar uma breve descrição de alguns dos conceitos mais famosos:

  • Provençal: Remete ao sul da França, lavandas, romantismo, tons claros e móveis delicados.
  • Shabby Chic: Traz essa mesma delicadeza do provençal, mas com desgaste, nostalgia e charme vintage.
  • Rústico natural: Fala de terra, madeira, fibras, simplicidade.
  • Minimalismo contemporâneo: Fala de silêncio visual, sofisticação e design limpo.
  • Botânico: Conecta ciência, natureza e bem-estar.
  • Marinho: Evoca frescor, viagem, horizonte.
  • Vintage retrô: conversa com a memória afetiva das pessoas, tons mais pasteis, como se estivessem desgastadas com o tempo.
  • Luxo clássico: traz tradição e elegância. Equilíbrio entre riqueza, ouro e sofisticação, nunca exagerado. Afinal, quem é luxuoso não precisa sair anunciando isso por ai né?
  • Infantil lúdico: Explora cores, temas infantis e personagens, ativa imaginação e a alegria.
  • Spa terapêutico: Fala de autocuidado profundo. Silêncio, conexão e autocura.
  • Fashion: mais experimental, permite ousar, brincar, provocar. Permite até um certo grau de excentricidade.

Cada um desses conceitos pode se transformar em uma linha inteira — e olha que esses são só alguns poucos exemplos.

DA IDEIA AO PRODUTO: COMO TRANSFORMAR UM CONCEITO EM LINHA

Quando escolho um conceito, a primeira coisa que faço é mergulhar nele. Busco imagens, referências, filmes, ambientes, texturas. Crio um painel visual, quase como um mapa emocional. A partir dessas imagens, começo a extrair sensações: que cheiro isso tem? É doce? Seco? Fresco? Quente? Nostálgico? Futurista?

Depois, extraio as cores. Ferramentas como o site Design Seeds ajudam muito a entender como uma foto se transforma em paleta cromática. Mas o mais importante é observar o peso de cada cor. Uma cor que aparece pouco na foto de referência deve aparecer pouco na sua linha. Uma cor dominante deve dominar. Isso parece detalhe, mas muda completamente a percepção do projeto.

Na sequência escolho a combinação de essências. Aqui, o exercício é traduzir o conceito em cheiro: se o projeto é leve e natural, penso em notas cítricas, verdes e florais suaves; se é sofisticado, vou para amadeirados, resinas, especiarias ou florais intensos. O mais importante é observar o peso de cada nota. Uma nota de fundo deve sustentar a identidade, mas não gritar. A nota de topo deve convidar, não confundir. Parece detalhe, mas a escolha da fragrância muda completamente a percepção do produto — ela é, muitas vezes, o primeiro contato emocional do cliente com a sua marca.

Outro passo importante é escrever o briefing da linha. O exercício de transpor em palavras todo aquele sentimento pode até parecer desafiador, mas é essencial para definir com qualidade a alma da sua linha. O briefing é como a alma da coleção. É uma descrição do sentimento, do público, do comportamento, do aroma, da função dos produtos. No caso da nossa linha Maison Shabby Chic, por exemplo, o briefing falava de casas com móveis antigos, histórias, tons pastéis, nostalgia, cuidado, transformação. A partir desse texto, tudo ficou mais fácil: fragrância, embalagem, comunicação, fotografia.

E então penso nos produtos como um ritual. Não é apenas um sabonete. É o sabonete, o creme, o óleo, o aromatizador, a água para lençóis. É o banho, o pós-banho, o ambiente. É uma experiência completa.

Quando o conceito está bem definido, a embalagem quase se escolhe sozinha. Por exemplo, um conceito rústico pede kraft, vidro âmbar, cordas naturais. Um conceito minimalista pede frascos clean, tipografia elegante, poucos elementos. Um conceito provençal pede delicadeza, flores, tons suaves. O conceito vira o diretor de arte do seu projeto.

Quando você cria com conceito, você cria memória afetiva. E memória afetiva cria vínculo. Vínculo cria marca. Marca cria valor.

Sem conceito, tudo vira colagem. Provençal com neon, rústico com embalagem ultra tecnológica, floral romântico com linguagem agressiva. Isso confunde o cliente, enfraquece a marca e diminui o valor percebido.

O QUE VEM A SEGUIR

Este foi o nosso mergulho inicial no universo dos conceitos. Onde aprendemos o que é um conceito.

A partir daqui, nos próximos blogs, vamos fazer uma verdadeira imersão, quero te levar para a prática, conceito por conceito, mostrando cores, fragrâncias, embalagens, referências do nosso mundo do cosmético artesanal e de outros mundos também, como a moda e decoração por exemplo.

Então, minha senhora, respirara fundo e antes de comprar matéria-prima, antes de escolher a embalagem ou a cor do sabonete, pare e se pergunte:
qual é o conceito do meu projeto?

Porque, no fim, conceito é o que transforma um produto em experiência e você, artesã, em marca.

Então temos um combinado: te espero nos próximos blogs, onde vamos explorar conceito por conceito e fazer um mergulho profundo em cada um deles — da teoria à prática.

Beijuuuuuuuuuuuuu

 

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