ÓLEO DE ABACATE, UM ATIVO CHEIO DE HISTÓRIA

Olá, Amadas!

Hoje eu quero começar nosso papo fazendo você olhar para um óleo vegetal de um jeito um pouquinho diferente.

Quando pensamos em óleo vegetal, é muito comum imaginar sementes sendo prensadas: semente de uva, de girassol, de linhaça, de gergelim… Aí chega o abacate e muda completamente essa lógica. Porque uma das grandes riquezas desse fruto está justamente naquela polpa cremosa que a gente conhece tão bem.

Sim, minha senhora: o abacate é uma das poucas frutas cuja polpa possui gordura suficiente para dar origem a um óleo vegetal comercialmente importante. E talvez seja justamente por isso que sua textura já entrega uma pista antes mesmo de estudarmos qualquer ficha técnica. Quem corta um abacate maduro percebe na hora: aquela polpa é densa, amanteigada, envolvente. Existe ali uma composição completamente diferente da maioria das frutas que colocamos na mesa.

E quando transformamos essa riqueza em óleo, encontramos uma matéria-prima cheia de possibilidades para pele e cabelos, especialmente por sua concentração de ácido oleico, ácido linoleico, vitamina E, carotenoides e fitosteróis. É uma composição que ajuda a explicar sua ação emoliente, sua capacidade de melhorar o conforto da pele e seu enorme interesse em formulações hidratantes, nutritivas e destinadas aos cuidados com fios ressecados.

Mas eu já vou te avisar: o abacate tem muito mais história do que parece. É uma fruta cultivada por povos das Américas há milhares de anos, possui um nome com uma origem linguística bastante curiosa, é botanicamente algo que provavelmente você nunca imaginou e até a variedade mais famosa do mundo quase desapareceu antes de existir comercialmente.

Agora ficou curiosa, né?

Então bora descobrir tudo isso comigo!

MUITO ANTES DO GUACAMOLE, JÁ EXISTIA UMA HISTÓRIA

O abacateiro, Persea americana, é uma planta nativa das Américas, com origem ligada principalmente ao México, à América Central e a regiões próximas. E quando eu digo que sua relação com os seres humanos é antiga, não estamos falando de alguns séculos: evidências arqueológicas encontradas no México indicam a presença do abacate há cerca de 10 mil anos, e existem sinais de seleção humana da planta que remontam aproximadamente a 8.000 a.C.

Ou seja, muito antes de existir indústria cosmética, laboratório ou qualquer conversa sobre ácido oleico e vitamina E, diferentes povos já valorizavam esse fruto.

Quando os europeus chegaram às Américas, encontraram uma planta que já fazia parte da alimentação e da cultura dos povos originários. Os astecas conheciam o fruto pelo nome náuatle ĀHUACATL, palavra da qual surgiria mais tarde o espanhol AGUACATE. E aqui aparece uma das curiosidades que mais gosto sobre o abacate, porque ela costuma ser repetida de maneira meio errada.

Você talvez já tenha ouvido alguém dizer que “abacate” significa “testículo” em náuatle. A história é um pouco mais interessante do que isso. Dicionários históricos registram āhuacatl como o nome do próprio fruto e também documentam um uso metafórico da palavra para se referir aos testículos, provavelmente relacionado à forma e à maneira como os frutos aparecem pendurados na árvore. Então é mais correto dizer que a palavra possuía também essa associação figurada, e não simplesmente que o nome do fruto nasceu da palavra “testículo”.

Olha que ótima informação para contar para uma cliente! É curiosa, divertida e, ao mesmo tempo, nos coloca diante de uma fruta cuja relação com as pessoas atravessa milhares de anos.

E tem mais.

Apesar daquele caroço enorme no centro, o abacate não é uma drupa, como o pêssego ou a manga. Nas drupas, a semente fica protegida por uma camada interna dura. No abacate, essa estrutura não existe e, por isso, botanicamente ele é classificado como uma baga de uma única semente. Sim: tecnicamente, ele está no grupo das bagas! A explicação está na estrutura das camadas que formam o fruto, principalmente no fato de seu endocarpo não formar aquela estrutura dura, o “caroço” típico das drupas.

E se você achou estranho, espera até conhecer as flores.

As flores do abacateiro apresentam um comportamento muito peculiar: cada flor funciona primeiro em sua fase feminina, fecha e depois volta a abrir em uma fase masculina. Dependendo da variedade, esses horários de abertura seguem padrões diferentes, conhecidos como tipos A e B. É uma estratégia reprodutiva tão particular que pesquisadores dedicam trabalhos inteiros a entender esse mecanismo.

Viu como um fruto que parece tão familiar começa a ficar completamente diferente quando a gente olha de perto?

O ÓLEO QUE, AO CONTRÁRIO DE MUITOS, NASCE DA POLPA

Agora nós chegamos a uma das características mais especiais dessa matéria-prima.

Enquanto muitos óleos vegetais são obtidos de sementes, o óleo de abacate de maior interesse alimentar e cosmético é produzido principalmente a partir da polpa do fruto, justamente porque ela acumula uma quantidade excepcional de lipídios. Essa característica coloca o abacate ao lado de poucos frutos oleaginosos cuja parte carnosa pode ser utilizada como fonte de óleo.

Existem diferentes métodos de extração. O óleo pode ser obtido por processos mecânicos, incluindo prensagem, além de métodos que utilizam centrifugação, enzimas, solventes ou tecnologias mais recentes. Quando falamos de óleos pouco refinados ou obtidos por processos que preservam melhor os compostos naturais da fruta, encontramos uma coloração que pode variar do amarelo ao verde intenso. Essa tonalidade não está ali à toa: ela está relacionada, entre outros fatores, à presença de clorofilas e carotenoides.

Isso nos ensina outra coisa importante. Nem todo óleo de abacate terá exatamente a mesma aparência, o mesmo odor ou a mesma composição. A variedade do fruto, seu grau de maturação, a região onde foi cultivado e o processo utilizado para extrair e refinar o óleo interferem no resultado final.

E existe uma história deliciosa sobre variedade de abacate que merece entrar aqui.

Hoje, quando pensamos em abacate comercial no mundo, um dos nomes mais conhecidos é Hass. Mas essa variedade quase não existiu.

No final da década de 1920, Rudolph Hass, um carteiro da Califórnia, comprou uma muda originada de semente e tentou enxertá-la com outra variedade comercial. Os enxertos não davam certo e ele chegou a considerar cortar a árvore. Quem ajudou a salvá-la foram os próprios filhos, que gostavam muito dos frutos que ela produzia. Hass acabou percebendo a qualidade e a produtividade daquela árvore, deu a ela seu sobrenome e patenteou a variedade em 1935.

Imagina só: uma das variedades de abacate mais reconhecidas do planeta poderia ter terminado num machado porque um enxerto não pegou.

Eu adoro histórias assim porque elas nos lembram que inovação também nasce de olhar duas vezes para aquilo que, num primeiro momento, parece ter dado errado.

A COMPOSIÇÃO QUE EXPLICA O TOQUE NA PELE

Agora vamos entrar naquela parte de que eu gosto muito: entender por que o ingrediente faz aquilo que faz.

O óleo de abacate possui predominância de ácidos graxos insaturados. O ácido oleico, conhecido como ômega 9, costuma ocupar a maior parcela da composição e pode chegar a aproximadamente 60% ou mais, dependendo da variedade e das condições do óleo. Também aparecem ácido linoleico, ácido palmítico e, em proporções menores e variáveis, outros ácidos graxos.

E o que isso significa na prática?

Os ácidos graxos participam diretamente do comportamento emoliente do óleo. Quando aplicamos um produto que contém uma fase oleosa bem formulada sobre a pele, esses lipídios ajudam a suavizar a superfície, melhorar a flexibilidade e diminuir aquela sensação áspera que aparece principalmente quando a barreira cutânea está comprometida ou com pouca reposição lipídica.

É aqui que vale relembrar uma diferença importante: óleo não coloca água na pele. Quem faz isso são os componentes umectantes e a própria fase aquosa de determinadas formulações. O papel de um bom óleo é principalmente ajudar na emoliência e contribuir para reduzir a perda de água, favorecendo a manutenção do conforto e da maciez.

Além dos ácidos graxos, encontramos no óleo de abacate os chamados componentes minoritários, presentes em quantidades menores, mas extremamente interessantes. Entre eles estão tocoferóis, associados à vitamina E, carotenoides como luteína e betacaroteno e fitosteróis, com destaque para o beta-sitosterol.

A vitamina E atua como antioxidante, ajudando a neutralizar radicais livres e a proteger os lipídios contra processos oxidativos. Os carotenoides e outros compostos antioxidantes também contribuem para esse perfil, razão pela qual o óleo de abacate desperta interesse em formulações de cuidados destinados à pele seca, madura ou exposta a fatores ambientais.

Estudos experimentais e revisões científicas também vêm investigando óleos vegetais, incluindo o de abacate, por seu papel na manutenção da barreira cutânea e nos processos relacionados à recuperação da pele.

UMA MATÉRIA-PRIMA QUE GOSTA DE PELE E CABELO

Na pele, o óleo de abacate encontra um terreno especialmente interessante quando buscamos nutrição e conforto. Sua composição lipídica ajuda a suavizar regiões ressecadas, melhorar a sensação de flexibilidade e formar uma camada protetora que favorece a manutenção da hidratação.

É uma escolha muito interessante para cremes corporais mais ricos, manteigas hidratantes, loções nutritivas, bálsamos, óleos corporais e sabonetes desenvolvidos para deixar um sensorial mais confortável depois do banho. Também combina bastante com propostas anti-idade, principalmente pela presença dos antioxidantes e pela importância que a reposição lipídica ganha em peles que, com o passar do tempo, tendem a apresentar maior ressecamento.

E aqui existe um detalhe de formulação que vale ouro: por ser um óleo de perfil relativamente rico, a quantidade usada interfere completamente na experiência final. Em uma manteiga corporal, queremos justamente esse abraço mais nutritivo. Em um produto facial leve, talvez precisemos trabalhar com concentração menor e equilibrá-lo com ingredientes de sensorial mais seco. Não existe matéria-prima “pesada” ou “leve” isoladamente capaz de definir um cosmético inteiro; existe uma fórmula construída de maneira inteligente.

Nos cabelos, a história fica igualmente interessante.

Óleos vegetais podem atuar tanto na superfície da fibra quanto, dependendo da composição dos triglicerídeos, penetrar em partes do complexo lipídico do fio. Estudos recentes mostram que diferentes óleos vegetais conseguem penetrar na estrutura capilar em graus variados e que essa interação pode contribuir para resistência à fadiga, maciez e redução de danos mecânicos.

No caso do óleo de abacate, sua riqueza em ácidos graxos insaturados o torna especialmente interessante em máscaras, condicionadores, leave-ins, óleos finalizadores e tratamentos destinados a cabelos secos, crespos, cacheados ou sensibilizados por processos químicos. Ele ajuda a melhorar a lubrificação da fibra, reduzir atrito entre os fios e devolver uma percepção de maciez e brilho.

Isso não significa que ele “reconstrua” sozinho um cabelo danificado ou faça o cabelo crescer. Reconstrução envolve proteínas e outros mecanismos, enquanto crescimento acontece no folículo e depende de muitos fatores. O valor do óleo está em outra parte: proteger melhor aquilo que já cresceu, diminuir a aparência de ressecamento, melhorar o toque e ajudar a reduzir danos associados ao atrito.

E eu acho essa uma mensagem muito boa para levar à cliente. Às vezes, cuidar do cabelo não é prometer que ele vai crescer dez centímetros. É fazer com que os centímetros que ele já conquistou permaneçam mais bonitos, protegidos e com menos quebra.

DA FRUTA MAIS FAMILIAR A UM PRODUTO CHEIO DE HISTÓRIA

Talvez o maior trunfo do óleo de abacate para quem trabalha com cosmética artesanal seja justamente o fato de ele partir de algo que todo mundo conhece.

Você não precisa explicar para a cliente o que é um abacate. Ela já conhece a textura, a cremosidade, a cor e provavelmente tem alguma memória ligada ao fruto. Seu trabalho começa um passo adiante: mostrar tudo aquilo que ela ainda não sabe.

Conte que o abacate acompanha os povos das Américas há milhares de anos. Conte que sua palavra original em náuatle guarda uma história linguística curiosíssima. Explique que, botanicamente, aquela fruta enorme é classificada como uma baga. Fale sobre as flores que se abrem em dois momentos diferentes. Mostre que, ao contrário de tantos óleos vegetais, neste caso a grande riqueza está justamente na polpa.

E se quiser contar uma história que ninguém espera, fale de Rudolph Hass e daquela árvore que quase foi cortada porque os enxertos davam errado. Uma fruta familiar passa imediatamente a carregar descobertas.

E, quando for apresentar o produto, não pare no “contém óleo de abacate”.

Explique por que você colocou óleo de abacate ali.

É essa frase que muda tudo.

Porque escolher um ativo só porque ele parece bonito no rótulo é uma coisa. Escolher porque você entende sua composição, conhece sua origem e sabe exatamente qual papel quer que ele desempenhe dentro daquela criação é outra completamente diferente.

Talvez seja essa a grande aula que o abacate deixa para nós. Ele é uma fruta que parece ter nos mostrado tudo logo de cara: polpa, caroço, cremosidade, sabor. Mas quando começamos a estudar, descobrimos história indígena, botânica curiosa, química, tecnologia e uma matéria-prima cosmética inteira escondida naquilo que já conhecíamos desde sempre.

Então fica aqui o meu convite: da próxima vez que você abrir um abacate, olha para aquela polpa com outros olhos. Ali existe muito mais do que alimento. Existe uma combinação de lipídios e compostos naturais que atravessou milhares de anos de relação com as pessoas e que hoje pode ganhar uma nova vida dentro das suas formulações.

E agora me conta aqui nos comentários: Se você fosse colocar o óleo de abacate em uma criação hoje, qual produto sairia primeiro da sua bancada?

Vou amar descobrir as ideias de vocês!

Beijuuuuuuuuuuuuuuuu

 

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